Uma doença do século XIX, um ensaio clínico chinês e uma pergunta que a neurociência só agora começa a responder: o que acontece quando o corpo cansa antes da mente?
Nova York, 1869
O neurologista americano George Miller Beard tinha um problema. Seu consultório estava cheio de pacientes com queixas que não se encaixavam em nenhuma doença conhecida: cansaço que não passava com descanso, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, dificuldade de concentração e uma sensação difusa de esgotamento.
Beard deu um nome a esse quadro: neurastenia, literalmente "fraqueza dos nervos". Para ele, a causa estava na própria modernidade. O telégrafo, as ferrovias, os jornais diários e a pressa das cidades estariam drenando uma reserva finita de "energia nervosa". Ele chegou a chamar a condição de "nervosismo americano".
A ideia se espalhou. No início do século XX, a neurastenia era um dos diagnósticos mais comuns do Ocidente. Depois saiu de moda, foi absorvida por categorias como depressão e ansiedade e acabou retirada dos manuais psiquiátricos americanos.
Mas, do outro lado do mundo, ela sobreviveu.
O diagnóstico que a China guardou
Na China, a neurastenia ganhou nome próprio, shenjing shuairuo, e continuou sendo um dos diagnósticos mais usados durante boa parte do século XX.
Nos anos 1980, o psiquiatra e antropólogo de Harvard Arthur Kleinman foi estudar esses pacientes em Hunan e encontrou algo revelador: muitos deles também preenchiam critérios para depressão [1]. Mas falavam do sofrimento pelo corpo, com cansaço, dor, fraqueza e insônia, e não pela emoção.
A descoberta de Kleinman mostrou que fadiga, humor e ansiedade não são compartimentos separados. São camadas do mesmo sofrimento, e cada cultura e cada pessoa acessa uma camada primeiro.
Guarde essa ideia. Ela é a chave para entender o estudo mais citado sobre o Reishi.
O ensaio clínico de 2005
Em 2005, pesquisadores chineses publicaram no Journal of Medicinal Food um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com 132 pacientes diagnosticados com neurastenia [2].
Os participantes receberam Ganopoly, um extrato de polissacarídeos de Ganoderma lucidum, o Reishi, na dose de 1.800 mg três vezes ao dia, durante oito semanas. Os pesquisadores acompanharam a gravidade clínica, a fadiga e a sensação de bem-estar.
Ao final, no grupo Ganopoly, a sensação de fadiga caiu 28,3% e o bem-estar aumentou 38,7%. No placebo, as mudanças foram de 15,5% e 29,7%, respectivamente [2].
O placebo também melhorou, o que é comum em estudos de fadiga e bem-estar, porque expectativa e acompanhamento médico mudam a percepção. Mas o grupo do Reishi melhorou quase o dobro na fadiga.
Agora, volte a Kleinman. Os pacientes desse estudo carregavam um diagnóstico que, na prática clínica chinesa, frequentemente envolvia ansiedade e humor deprimido expressos pelo corpo. O ensaio não mediu ansiedade diretamente, mas mediu a camada pela qual muitos desses pacientes viviam o sofrimento: o esgotamento.
É por isso que esse estudo aparece em toda conversa sobre Reishi e ansiedade. Não porque prove que o cogumelo trata ansiedade, mas porque toca na porta de entrada corporal pela qual a ansiedade muitas vezes chega.
Um corpo exausto interpreta o mundo de outro jeito
Quem já passou por uma semana de pouco sono e muito trabalho conhece esse fenômeno. Um e-mail neutro parece agressivo, um atraso pequeno parece uma catástrofe, e o barulho que normalmente passaria despercebido irrita.
Isso tem base biológica. O cérebro está constantemente prevendo o estado do corpo e interpretando sinais internos. Quando o corpo envia sinais de esgotamento, o cérebro tende a interpretar o ambiente como mais ameaçador, e o sistema de alarme fica mais sensível.
A fadiga persistente, portanto, não é só um sintoma ao lado da ansiedade. Ela pode ser parte do terreno onde a ansiedade cresce.
Por isso, quando alguém busca Reishi "para ansiedade", muitas vezes não procura apenas menos preocupação. Procura um corpo mais regulado: mais descanso, menos desgaste e mais estabilidade para atravessar a rotina.
Um segundo sinal humano: fadiga e ansiedade no câncer
Existe outro estudo humano que avança um passo nessa direção.
Em 2012, um ensaio piloto avaliou o pó de esporos de Reishi em 48 mulheres com câncer de mama em terapia hormonal, um tratamento conhecido por causar fadiga intensa [3]. Depois de quatro semanas, o grupo que recebeu os esporos relatou menos fadiga e, dessa vez, os pesquisadores mediram também ansiedade e depressão. As duas diminuíram, e a qualidade de vida melhorou.
É um estudo pequeno e numa população muito específica. Mas mostra o mesmo padrão: quando a fadiga cede, o humor e a ansiedade parecem acompanhar.
O que o cérebro tem a ver com isso: o BDNF
Para entender por que os neurocientistas olham para o Reishi, precisamos falar de uma proteína que já apareceu nesta série: o BDNF, o fator neurotrófico derivado do cérebro.
O BDNF participa da sobrevivência dos neurônios, da plasticidade sináptica e da capacidade do cérebro de reorganizar conexões em resposta à experiência. Ele também tem uma relação direta com o estresse: o estresse crônico tende a reduzir o BDNF em regiões como o hipocampo, e vários tratamentos para ansiedade e depressão parecem agir, em parte, restaurando essa sinalização.
Num estudo pré-clínico publicado na Scientific Reports, animais expostos a hipóxia, uma forma intensa de estresse fisiológico que prejudica a memória, receberam extrato aquoso de Reishi [4]. O extrato preservou a memória e modulou vias de neurotransmissão, neuroplasticidade e equilíbrio redox, incluindo o aumento da expressão de CREB e BDNF pela via ERK1/ERK2.
Em termos simples, sob estresse, o Reishi ajudou a manter ativa uma das principais vias que o cérebro usa para se adaptar.
O sistema nervoso não vive separado do corpo
Talvez a ideia mais interessante sobre o Reishi seja que ele não conversa apenas com a "mente". Ele conversa com o corpo, e o corpo conversa com o cérebro.
Há quase duas décadas, os neurocientistas Robert Dantzer e Keith Kelley mostraram que o sistema imune fala diretamente com o cérebro [5]. Quando estamos doentes, moléculas inflamatórias chamadas citocinas sinalizam ao cérebro, que responde com o que se chama de comportamento de doença: cansaço, desânimo, isolamento, sono alterado e perda de interesse.
Esse comportamento é útil numa gripe, porque força o repouso. O problema aparece quando a inflamação fica ligada por meses, em baixa intensidade. O resultado se parece muito com o quadro que Beard descreveu em 1869: fadiga, irritabilidade, humor rebaixado e ansiedade.
E é exatamente aqui que o Reishi tem a sua pesquisa mais sólida. Os polissacarídeos e triterpenoides do cogumelo estão entre os compostos naturais mais estudados por efeitos imunomoduladores e anti-inflamatórios.
Um estudo publicado na Nutrients juntou essas peças [6]. Camundongos submetidos a separação materna, um modelo de estresse precoce, desenvolveram comportamentos semelhantes à ansiedade e à depressão quando adultos. Os animais tratados com triterpenoides de Reishi apresentaram menos desses comportamentos e menos inflamação, tanto no sangue quanto no cérebro.
O efeito sobre o comportamento veio acompanhado de um efeito sobre a inflamação. Não parece coincidência.
A microglia: as células de defesa do cérebro
Dentro do cérebro, quem coordena a resposta inflamatória é a microglia, um tipo de célula imune residente. Quando a microglia fica cronicamente ativada, libera sinais inflamatórios que afetam neurônios, sinapses e, potencialmente, o humor.
Em células microgliais expostas a um estímulo inflamatório, o ácido ganodérico A, um triterpenoide isolado do Reishi, reduziu a ativação e a resposta inflamatória [7].
Outro trabalho, publicado na Neural Regeneration Research, testou polissacarídeos de Reishi em neurônios expostos a estresse oxidativo. Os polissacarídeos reduziram a morte celular programada e modularam proteínas da via apoptótica [8].
São estudos em células, mas desenham um mapa coerente: o Reishi parece atuar justamente nas interfaces entre imunidade, inflamação e sistema nervoso.
E o sono?
Há ainda uma terceira camada, talvez a mais intuitiva para quem associa o Reishi à calma.
Em ratos, um extrato de Reishi aumentou o tempo total de sono, sobretudo o sono não-REM, a fase mais associada à recuperação física [9]. Os pesquisadores relacionaram o efeito a uma citocina inflamatória, o TNF-α, que também participa da regulação do sono.
O sono fecha o ciclo. Fadiga piora a ansiedade, ansiedade piora o sono, sono ruim aumenta a inflamação, e a inflamação alimenta a fadiga. Um composto que atue em mais de um ponto desse ciclo é, no mínimo, cientificamente interessante.
Por que o Reishi virou "o cogumelo da calma"
A fama do Reishi não nasceu no marketing moderno.
Na China, ele é conhecido como lingzhi. O Shennong Bencao Jing, um dos textos mais antigos da farmacologia chinesa, já o classificava entre as substâncias "superiores", associadas à vitalidade e à longevidade. Na medicina tradicional chinesa, o lingzhi é tradicionalmente agrupado entre as ervas que "acalmam o espírito", o an shen.
O detalhe interessante é o que "espírito" significa nesse contexto. Não se trata de uma calma sedativa, como a de um remédio para dormir. O shen tem a ver com estabilidade, clareza e a capacidade de atravessar a vida sem se desorganizar.
De certa forma, a tradição e a pesquisa moderna convergem para a mesma ideia: o Reishi não é estudado como algo que desliga a ansiedade, mas como algo que pode ajudar o organismo a se manter regulado.
Qual Reishi? Polissacarídeos e triterpenoides
Aqui aparece um detalhe que quase nenhum conteúdo sobre Reishi explica, e que muda a forma de ler os estudos.
O Reishi tem duas grandes famílias de compostos ativos, e elas se comportam de maneiras opostas na extração:
- Polissacarídeos são solúveis em água. São extraídos com água quente e estão associados sobretudo a efeitos imunomoduladores. O Ganopoly, do ensaio com neurastenia, é um extrato desse tipo.
- Triterpenoides, como os ácidos ganodéricos, são pouco solúveis em água e precisam de álcool para serem extraídos. São eles que dão ao Reishi o seu sabor amargo característico. Foram os triterpenoides que reduziram os comportamentos de ansiedade nos camundongos.
Ou seja, o principal dado humano sobre fadiga e bem-estar veio de uma fração, e o principal dado animal sobre ansiedade veio de outra. Um chá de Reishi feito só com água quente quase não leva triterpenoides. Um extrato só alcoólico perde boa parte dos polissacarídeos.
É por isso que existem os extratos duplos, feitos com água e álcool, que tentam capturar as duas famílias.
Na hora de avaliar um produto ou um estudo, as perguntas certas são: é corpo de frutificação, micélio ou esporo? O extrato é aquoso, alcoólico ou duplo? Há padronização de polissacarídeos e de triterpenoides? A dose é compatível com a usada nos estudos? Por quanto tempo foi usado?
No estudo com Ganopoly, por exemplo, a dose diária foi de 5,4 g de um extrato padronizado, mantida por oito semanas. Isso não pode ser comparado diretamente a qualquer cápsula genérica de Reishi.
Onde a ciência está hoje
O caminho científico tem etapas. Primeiro aparecem sinais, depois mecanismos, depois estudos controlados, depois replicação, e por fim comparações entre doses, extratos e populações.
O Reishi está no meio desse caminho. Há estudos clínicos iniciais em fadiga e bem-estar e um estudo piloto que também mediu ansiedade. Há mecanismos pré-clínicos que envolvem BDNF, inflamação, microglia, neuroproteção e sono.
O que ainda falta são grandes ensaios clínicos com ansiedade como desfecho principal. Até lá, a leitura mais precisa é esta: o Reishi não é um ansiolítico, mas um cogumelo que atua sobre sistemas que sustentam a regulação do organismo, como fadiga, inflamação, sono e plasticidade neural.
De volta a 1869
George Miller Beard estava errado sobre muita coisa. Não existe uma "energia nervosa" finita que o telégrafo drena. Mas ele percebeu algo que a medicina levou mais de um século para levar a sério: o esgotamento do corpo e o sofrimento da mente andam juntos.
Hoje temos palavras melhores para isso: inflamação de baixo grau, comportamento de doença, BDNF, eixo imune-cérebro. E temos um cogumelo milenar que, curiosamente, aparece em quase todas essas vias.
Talvez a pergunta certa sobre o Reishi nunca tenha sido "ele acalma?". Talvez seja: o que acontece com a mente quando o corpo finalmente consegue se recuperar?
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Referências bibliográficas
- Kleinman A. Social Origins of Distress and Disease: Depression, Neurasthenia, and Pain in Modern China. New Haven: Yale University Press; 1986.
- Tang W, Gao Y, Chen G, Gao H, Dai X, Ye J, Chan E, Huang M, Zhou S. A randomized, double-blind and placebo-controlled study of a Ganoderma lucidum polysaccharide extract in neurasthenia. Journal of Medicinal Food. 2005;8(1):53-58. doi:10.1089/jmf.2005.8.53
- Zhao H, Zhang Q, Zhao L, Huang X, Wang J, Kang X. Spore powder of Ganoderma lucidum improves cancer-related fatigue in breast cancer patients undergoing endocrine therapy: a pilot clinical trial. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2012;2012:809614.
- Sharma P, et al. Ganoderma lucidum aqueous extract prevents hypobaric hypoxia induced memory deficit by modulating neurotransmission, neuroplasticity and maintaining redox homeostasis. Scientific Reports. 2020. doi:10.1038/s41598-020-65812-5
- Dantzer R, O'Connor JC, Freund GG, Johnson RW, Kelley KW. From inflammation to sickness and depression: when the immune system subjugates the brain. Nature Reviews Neuroscience. 2008;9(1):46-56.
- Mi X, Zeng GR, Liu JQ, Luo ZS, Zhang L, Dai XM, Fang WT, Zhang J, Chen XC. Ganoderma lucidum triterpenoids improve maternal separation-induced anxiety- and depression-like behaviors in mice by mitigating inflammation in the periphery and brain. Nutrients. 2022;14(11):2268. doi:10.3390/nu14112268
- Jia Y, et al. Ganoderic acid A attenuates LPS-induced neuroinflammation in BV2 microglia by activating farnesoid X receptor. Neurochemical Research. 2021. doi:10.1007/s11064-021-03303-3
- Sun XZ, Liao Y, Li W, Guo LM. Neuroprotective effects of Ganoderma lucidum polysaccharides against oxidative stress-induced neuronal apoptosis. Neural Regeneration Research. 2017;12(6):953-958. doi:10.4103/1673-5374.208596
- Cui XY, Cui SY, Zhang J, et al. Extract of Ganoderma lucidum prolongs sleep time in rats. Journal of Ethnopharmacology. 2012;139(3):796-800.



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