Um fungo ficou famoso por recordes que provavelmente não eram dele. Trinta anos depois, os laboratórios começam a medir o que ele faz de verdade: na célula, no oxigênio e no cérebro.
Setembro de 1993
Nos Jogos Nacionais da China, em Pequim, um grupo de corredoras praticamente desconhecido fora do país fez o mundo do atletismo parar.
Em poucos dias, as atletas do técnico Ma Junren derrubaram recordes mundiais nos 1.500, 3.000 e 10.000 metros. Wang Junxia correu os 10.000 m em 29min31s78, quase 42 segundos abaixo do recorde anterior. Nas provas de fundo, saltos assim costumam levar décadas. Aquela marca só cairia em 2016.
Os jornalistas queriam saber o segredo, e Ma Junren tinha uma resposta pronta: treinos brutais em altitude e um tônico tradicional feito com sangue de tartaruga e dong chong xia cao, o "verme de inverno, erva de verão". É o fungo que cresce sobre larvas de mariposa nos planaltos do Tibete, conhecido hoje como Ophiocordyceps sinensis, uma das espécies de Cordyceps.
Do dia para a noite, um ingrediente da medicina tradicional chinesa virou manchete da imprensa esportiva mundial. Nascia ali a fama do Cordyceps como "o cogumelo da resistência".
O problema é que a história não terminou em 1993.
O que veio depois
Os resultados do grupo de Ma Junren despertaram cada vez mais suspeitas. Em 2000, pouco antes dos Jogos de Sydney, a China retirou vários atletas da delegação depois de exames de sangue, entre eles nomes ligados ao técnico. Era justamente o momento em que os testes para EPO começavam a ser usados.
Em 2016, a imprensa chinesa publicou uma carta escrita nos anos 1990 e atribuída a Wang Junxia e outras nove atletas. Nela, elas afirmavam ter sido obrigadas a usar substâncias proibidas.
Os recordes nunca foram anulados oficialmente, mas o consenso no esporte se consolidou: o segredo de 1993 dificilmente era um cogumelo.
E aqui está a ironia que torna essa história tão interessante. O Cordyceps ficou famoso por um resultado que, muito provavelmente, não era dele. Durante anos, sua reputação esportiva se apoiou mais em uma lenda do que em dados.
Por isso os estudos controlados importam tanto. Eles fazem a pergunta que ninguém fez em 1993: deixando de lado o técnico, as suspeitas e o marketing, o que esse fungo faz de mensurável no corpo humano?
Para responder, precisamos descer ao nível onde a energia realmente nasce.
Energia não é uma sensação
Quando dizemos que algo "dá energia", estamos descrevendo uma sensação: disposição, menos cansaço, vontade de treinar. Mas, antes de virar sensação, a energia precisa ser produzida dentro das células.
Contrair um músculo, manter o coração batendo, disparar um impulso nervoso ou simplesmente manter uma célula viva exige uma fonte de energia imediata. Essa fonte é principalmente o ATP, a adenosina trifosfato.
O ATP funciona como a moeda energética da célula. Quando ela precisa realizar trabalho, quebra uma ligação de alta energia do ATP e o transforma em ADP. Em seguida, precisa reconstruir esse ATP, e faz isso sem parar.
O detalhe que muda tudo é que o corpo guarda muito pouco ATP pronto. Os estoques musculares duram apenas alguns segundos de esforço intenso. Durante praticamente todo o exercício, as células reconstroem ATP em tempo real, e a forma mais eficiente de fazer isso exige oxigênio, queimado dentro das mitocôndrias.
É nesse ponto, entre o ATP e o oxigênio, que o Cordyceps desperta interesse científico.
Cordicepina: uma molécula quase idêntica à adenosina
Hoje, a espécie mais estudada não é o fungo selvagem do Tibete, que é raro e caríssimo, mas o Cordyceps militaris, que pode ser cultivado. Ele contém polissacarídeos, esteróis, nucleosídeos e uma molécula que virou praticamente sua assinatura química: a cordicepina.
Quimicamente, a cordicepina é a 3'-desoxiadenosina. Ela é praticamente igual à adenosina, a mesma que forma a "espinha" do ATP, só que sem um único átomo de oxigênio numa posição específica.
Essa semelhança não significa que comer cordicepina produz mais ATP automaticamente. O mecanismo é mais sutil, e mais interessante.
AMPK: o sensor de energia da célula
Toda célula tem um medidor de combustível chamado AMPK, a proteína quinase ativada por AMP. Quando o ATP é consumido, sobra AMP, e o aumento de AMP funciona como um alarme. A AMPK detecta esse sinal e reorganiza o metabolismo, como se dissesse: "precisamos administrar melhor a energia disponível".
Com a AMPK ativada, a célula aumenta a captação de glicose e a queima de gordura e desacelera processos caros, como a síntese de proteínas e lipídios.
Em 2020, a equipe de Grahame Hardie, um dos maiores especialistas em AMPK do mundo, mostrou em experimentos com células como a cordicepina conversa com esse sistema [1]. Ela entra nas células pelos transportadores de adenosina e lá é convertida em formas fosforiladas. O monofosfato de cordicepina imita o AMP: encaixa-se no sensor e ativa a AMPK como se a célula estivesse com pouca energia.
Em outras palavras, a cordicepina não entrega energia. Ela envia um sinal que faz a célula se comportar como se precisasse gerenciar melhor a energia que tem.
Há um paralelo curioso aqui. O próprio exercício ativa a AMPK, e essa ativação repetida, treino após treino, é um dos sinais que levam o músculo a construir mais mitocôndrias. Essa conexão ainda é especulativa no caso do Cordyceps, mas ajuda a entender por que os pesquisadores olham para ele no contexto do metabolismo energético.
Mas energia celular é apenas uma parte da história. Existe outro elemento fundamental: o oxigênio.
O que é VO₂
Em 1923, o fisiologista britânico Archibald Hill, Nobel de Medicina no ano anterior, descreveu algo que hoje parece óbvio: existe um teto para a quantidade de oxigênio que o corpo consegue usar no esforço [2]. Esse teto ficou conhecido como VO₂máx, o consumo máximo de oxigênio.
O VO₂máx depende de uma cadeia inteira de etapas. Os pulmões captam o oxigênio, o coração o bombeia, a hemoglobina o transporta, e os músculos o extraem do sangue e o entregam às mitocôndrias para produzir ATP. A fisiologia resume isso na equação de Fick:
VO₂ = débito cardíaco × diferença de oxigênio entre artéria e veia
Ou seja, quanto sangue o coração bombeia, multiplicado por quanto oxigênio os tecidos retiram desse sangue. Em atletas treinados, o fator que mais limita o VO₂máx costuma ser a entrega: a capacidade do coração e do sangue de levar oxigênio até o músculo [3].
Para dimensionar: um adulto sedentário costuma ter VO₂máx entre 30 e 45 mL/kg/min. Corredores de elite passam de 70. Esquiadores de fundo, talvez os atletas aeróbicos mais impressionantes do planeta, já registraram valores acima de 90.
Mas o VO₂máx não é a única medida importante. O limiar ventilatório marca a intensidade a partir da qual a respiração dispara e o esforço fica difícil de sustentar. Duas pessoas com o mesmo VO₂máx podem ter limiares muito diferentes, e quem tem o limiar mais alto aguenta um ritmo forte por mais tempo. Essa distinção vai ser importante daqui a pouco.
Como os atletas perseguem esse número
O VO₂máx é treinável, mas só até certo ponto. O estudo HERITAGE, que submeteu famílias inteiras ao mesmo programa de treino, mostrou que a resposta varia muito de pessoa para pessoa e que boa parte dessa variação é genética [4]. Alguns melhoram muito, outros quase nada.
Mesmo assim, os atletas encontraram caminhos para empurrar esse teto.
Intervalos de alta intensidade. Blocos como o 4×4 norueguês, quatro esforços de quatro minutos perto da frequência cardíaca máxima, aumentam o VO₂máx mais que o treino moderado contínuo [5]. O estímulo força o coração a trabalhar perto do limite e, com o tempo, aumenta o volume de sangue bombeado a cada batida.
Treino polarizado. Muitos atletas de resistência passam a maior parte do tempo em intensidade baixa e uma pequena fração em intensidade muito alta, quase sem zona intermediária. A base aeróbica larga sustenta a adaptação, e os poucos estímulos intensos elevam o teto.
Altitude. Com menos oxigênio no ar, o corpo produz mais eritropoetina (EPO) e, com ela, mais glóbulos vermelhos. A estratégia "viver no alto, treinar embaixo" melhorou o desempenho de corredores num estudo clássico [6]: o atleta ganha hemoglobina na altitude sem perder a intensidade do treino.
O atalho proibido. Se mais hemoglobina significa mais oxigênio entregue, existe um caminho mais curto: injetar EPO sintética ou fazer transfusões de sangue. Foi isso que transformou o doping sanguíneo no grande escândalo das provas de resistência nos anos 1990. E é por isso que as suspeitas sobre 1993 fazem tanto sentido fisiológico.
Repare no padrão. Tudo o que comprovadamente aumenta o VO₂máx atua na entrega de oxigênio e leva semanas ou meses. Não existe atalho legal de 30 minutos.
Há também uma razão para essa medida ter saído das pistas e chegado aos consultórios. Um estudo com mais de 120 mil adultos encontrou uma relação forte entre aptidão cardiorrespiratória e mortalidade: quanto maior a capacidade aeróbica, menor o risco de morte ao longo dos anos [7]. O VO₂máx virou um marcador de longevidade, e qualquer substância associada a "mais oxigênio" passou a despertar enorme interesse.
O estudo de 2026: uma dose, 30 minutos
Agora, de volta ao laboratório.
Num ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e com desenho crossover, os participantes receberam 1 g de extrato padronizado de Cordyceps militaris em uma ocasião e placebo em outra, sempre 30 minutos antes de um teste máximo de ciclismo [8]. No crossover, cada pessoa funciona como o seu próprio controle, e as diferenças de genética, condicionamento e metabolismo deixam de confundir a comparação.
Duas coisas mudaram.
O metabolismo em repouso. Com o voluntário sentado, antes de pedalar, o consumo de oxigênio foi de 0,24 L/min no placebo e de 0,37 L/min com Cordyceps, cerca de 54% maior.
O cérebro depois do esforço. Depois do teste máximo, os participantes fizeram uma tarefa de tempo de reação. A média foi de 964 ms com Cordyceps contra 1.034 ms no placebo, cerca de 70 milissegundos mais rápido, com precisão acima de 99% nas duas condições. A velocidade aumentou sem custo em erros.
E houve um terceiro resultado, tão importante quanto os dois primeiros: o Cordyceps não aumentou o pico de VO₂ durante o exercício.
Repouso não é máximo
Esse terceiro dado é a chave para ler o estudo corretamente, e é o ponto que quase todo mundo vai confundir.
O que mudou foi o VO₂ de repouso, não o VO₂máx. São medidas de naturezas opostas. O VO₂máx é o teto, o máximo de oxigênio que o corpo usa no limite do esforço. O VO₂ de repouso é o piso, o que o corpo gasta só para se manter funcionando.
Os números contam uma história curiosa. A fisiologia usa uma unidade chamada MET: 1 MET equivale a cerca de 3,5 mL de oxigênio por quilo por minuto, o gasto de uma pessoa sentada e tranquila. Para um adulto de 70 kg, isso dá cerca de 0,245 L/min, praticamente o valor do placebo.
Os 0,37 L/min da condição Cordyceps equivalem a cerca de 1,5 MET. Ainda sentado, o corpo gastava o mesmo que numa atividade muito leve. O teto não subiu. O motor estava girando mais rápido em marcha lenta.
O que pode estar por trás disso
Pela equação de Fick, um VO₂ de repouso maior exige que o coração bombeie mais sangue, que os tecidos extraiam mais oxigênio, ou as duas coisas.
A hipótese mais atraente conecta o resultado ao que vimos sobre a célula: se a cordicepina sinaliza ao sensor de energia que é preciso produzir mais, as mitocôndrias poderiam acelerar o consumo de oxigênio mesmo sem esforço.
Mas existem outras explicações possíveis, como termogênese ou ativação do sistema nervoso simpático, que também elevam o consumo de oxigênio em repouso.
O estudo mostra que o metabolismo mudou, mas não mostra por qual caminho. Para saber, seria preciso medir frequência cardíaca, marcadores mitocondriais ou catecolaminas. O mesmo vale para o tempo de reação: ainda não sabemos se o cérebro mais rápido e o metabolismo mais ativo são o mesmo fenômeno ou efeitos independentes.
Mesmo assim, o achado cognitivo merece atenção. Setenta milissegundos parecem pouco, mas em situações que exigem decisões rápidas depois de um esforço intenso, como um contra-ataque no fim de uma partida ou uma curva no fim de uma prova, essa diferença pode importar. Abre-se aqui uma área nova: a relação entre Cordyceps, metabolismo energético e desempenho mental sob fadiga.
Energia não é o mesmo que estimulação
Essa distinção é importante.
Quando pensamos em algo para "dar energia", normalmente pensamos logo em cafeína. Mas cafeína e Cordyceps são propostas completamente diferentes.
A cafeína atua principalmente no sistema nervoso central. Ela bloqueia os receptores de adenosina, a molécula que sinaliza cansaço ao cérebro, e reduz temporariamente a percepção de fadiga e sono.
O interesse científico pelo Cordyceps está em outro lugar: metabolismo energético, uso de oxigênio, tolerância ao esforço e respostas fisiológicas ao exercício.
Por isso, o efeito buscado não precisa ser aquela estimulação intensa típica de grandes doses de cafeína. O conceito é outro: não apenas sentir mais energia, mas entender como o organismo produz e usa energia.
O que acontece com semanas de uso
Se uma dose mostra um efeito agudo, a pergunta mais relevante para quem treina é o que acontece com a consistência. É nesse prazo que as adaptações reais costumam aparecer.
Em adultos jovens. Hirsch e colaboradores testaram uma mistura de cogumelos com Cordyceps militaris num ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo [9]. Depois de três semanas, o grupo suplementado apresentou aumento do VO₂máx de cerca de 4,8 mL/kg/min, além de melhora no limiar ventilatório e no tempo até a exaustão. O tempo até a exaustão aumentou cerca de 28 segundos após uma semana e quase 70 segundos após três semanas.
Em adultos mais velhos. Um ensaio com pessoas saudáveis de 50 a 75 anos usou o extrato Cs-4, derivado do Cordyceps sinensis, por 12 semanas [10]. O limiar metabólico aumentou cerca de 10,5% e o limiar ventilatório cerca de 8,5%, mas o VO₂máx não mudou de forma significativa.
Em ciclistas treinados. Com o mesmo tipo de extrato, por cinco semanas, não houve melhora no VO₂ pico, no limiar ventilatório nem no desempenho de resistência [11].
O estudo com idosos mostra algo que costuma ser confundido: aumentar a capacidade máxima e sustentar um esforço por mais tempo não são a mesma coisa. Para melhorar a tolerância ao exercício, o Cordyceps pode não precisar elevar o teto. Basta deslocar o limiar a partir do qual o esforço se torna insustentável.
Já o estudo com ciclistas sugere um padrão: os efeitos tendem a aparecer mais em quem não está no topo do condicionamento. Atletas que já treinam perto do limite genético têm menos espaço para melhorar.
Uma revisão de 2026 dedicada aos estudos humanos com Cordyceps militaris identificou cinco ensaios de intervenção publicados entre 2017 e 2024, somando 321 participantes [12]. Eles avaliaram VO₂máx, VO₂ pico, tempo até a exaustão, potência, desempenho em corrida, saturação de oxigênio e marcadores de recuperação muscular. Os resultados variam, mas o conjunto mostra por que esse se tornou um dos cogumelos funcionais mais estudados no esporte.
Por que os estudos não concordam: "Cordyceps" não é uma coisa só
Aqui a história de 1993 volta de um jeito inesperado.
O fungo do tônico de Ma Junren era o Ophiocordyceps sinensis. O extrato Cs-4 dos estudos com idosos e ciclistas vem dessa linhagem, mas é produzido por fermentação de micélio. O ensaio de 2026 usou o Cordyceps militaris, outra espécie, conhecida justamente por ser rica em cordicepina. Alguns estudos usaram misturas com outros cogumelos.
São organismos e preparações com composições químicas diferentes. Um resultado obtido com um deles não pode ser transferido automaticamente para os outros. Quando se lê "Cordyceps funciona" ou "Cordyceps não funciona", a primeira pergunta deveria ser: qual Cordyceps, em que dose, por quanto tempo e em quem?
A ciência do Cordyceps está revelando exatamente isso: espécie, composição, concentração, tempo de uso e perfil de quem usa importam.
Muito mais do que cordicepina
Embora a cordicepina seja a molécula mais famosa, reduzir o Cordyceps militaris a ela seria simplificar demais. O fungo contém uma matriz de compostos ativos [13, 14]: cordicepina, adenosina e outros nucleosídeos, polissacarídeos, esteróis, peptídeos e proteínas, carotenoides (que dão a cor alaranjada), ergotioneína (um antioxidante) e manitol.
Cada classe vem sendo estudada por mecanismos diferentes. Os polissacarídeos aparecem com frequência em pesquisas sobre imunidade e atividade antioxidante. A cordicepina concentra as investigações sobre sinalização celular e metabolismo [15].
É justamente essa combinação que torna os cogumelos funcionais biologicamente diferentes de suplementos baseados em uma única molécula isolada.
Fadiga: um fenômeno com muitas origens
Talvez a aplicação mais intuitiva de toda essa pesquisa seja a fadiga.
O cansaço durante o esforço não tem uma causa única. Ele nasce da interação entre cérebro, músculos, disponibilidade de energia, uso de oxigênio, acúmulo de metabólitos, estresse oxidativo, microlesões musculares e inflamação.
Por isso os estudos com Cordyceps medem tantos indicadores diferentes: tempo até a exaustão, VO₂máx e VO₂ pico, limiar ventilatório, potência, saturação de oxigênio, marcadores de dano muscular como a creatina quinase, ureia sanguínea, inflamação e, agora, tempo de reação.
Juntando essas peças, o Cordyceps não aparece como algo que simplesmente "dá energia". Aparece como um organismo investigado pela forma como o corpo produz energia, usa oxigênio, responde ao esforço e se recupera depois dele.
Da tradição ao laboratório
Durante séculos, o Cordyceps foi associado à vitalidade e à resistência na medicina tradicional chinesa. Naquela época, ninguém falava em ATP, AMPK, VO₂ ou mitocôndrias.
Em 1993, essa reputação tradicional foi usada para explicar recordes que provavelmente tinham outra origem. Foi o pior jeito possível de apresentar o fungo ao mundo: uma promessa enorme e nenhuma medida.
Em 2026, o quadro é outro. Os números são modestos: 70 milissegundos, 0,13 litro de oxigênio por minuto, alguns pontos percentuais no limiar ventilatório. Mas são números que alguém mediu, comparou com placebo e publicou.
A ciência não está repetindo a tradição. Está testando a tradição, molécula por molécula e estudo por estudo, e descobrindo que a resposta é mais complexa do que "funciona" ou "não funciona".
A energia começa na célula
Quando pensamos em vitalidade, pensamos no resultado final: mais disposição. Mas existe uma longa cadeia antes dessa sensação. Os nutrientes precisam ser metabolizados, o oxigênio precisa chegar aos tecidos, as mitocôndrias precisam trabalhar, o ATP precisa ser regenerado sem parar, os músculos precisam usar essa energia e o cérebro precisa coordenar tudo.
É dentro dessa cadeia que o Cordyceps militaris está sendo estudado. A cordicepina conversa com o sensor de energia da célula. Os estudos de semanas sugerem limiares mais altos e mais tolerância ao esforço. E agora um ensaio mostra o metabolismo em repouso acelerado e um cérebro mais rápido depois do cansaço.
Nenhuma dessas peças, sozinha, explica o que o Cordyceps faz. Juntas, elas mudam a pergunta. Talvez vitalidade não signifique estimular o organismo, e sim ajudá-lo a usar melhor os próprios sistemas de produção de energia.
Trinta anos depois de Pequim, a pergunta que importa é bem mais interessante que a lenda: para onde está indo esse oxigênio extra?
Referências bibliográficas
Hawley SA, Ross FA, Russell FM, et al. Mechanism of Activation of AMPK by Cordycepin. Cell Chemical Biology. 2020.
Estudo mecanístico demonstrando a entrada da cordicepina nas células, sua conversão em derivados fosforilados e sua relação com a ativação da AMPK.
Hirsch KR, Smith-Ryan AE, Roelofs EJ, Trexler ET, Mock MG. Cordyceps militaris Improves Tolerance to High-Intensity Exercise After Acute and Chronic Supplementation. Journal of Dietary Supplements. 2017;14(1):42–53.
Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliando VO₂ máximo, limiar ventilatório e tempo até a exaustão.
Chen S, Li Z, Krochmal R, Abrazado M, Kim W, Cooper CB. Effect of Cs-4 (Cordyceps sinensis) on Exercise Performance in Healthy Older Subjects: A Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. Journal of Alternative and Complementary Medicine. 2010;16(5):585–590.
Estudo de 12 semanas que encontrou aumento do limiar metabólico e ventilatório.
Parcell AC, Smith JM, Schulthies SS, Myrer JW, Fellingham G. Cordyceps Sinensis (CordyMax Cs-4) Supplementation Does Not Improve Endurance Exercise Performance. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2004;14(2):236–242.
Ensaio em ciclistas treinados que não encontrou melhora significativa de VO₂ pico ou desempenho, demonstrando a influência da população e da preparação utilizada.
Yang EJ, Jin L, Jiang HH, et al. An Immunomodulatory Mushroom, Cordyceps militaris, and Its Constituents: A Review of In Vitro/In Vivo Studies and Clinical Trials. Phytotherapy Research. 2026;40(2):635–665.
Revisão abrangente sobre os constituintes bioativos do C. militaris, incluindo cordicepina, adenosina, polissacarídeos, peptídeos, proteínas, esteróis, glicolipídios e carotenoides.
Ng TB, Wang HX. Pharmacological Actions of Cordyceps, a Prized Folk Medicine. Journal of Pharmacy and Pharmacology. 2005;57(12):1509–1519.
Revisão clássica sobre constituintes químicos e atividades biológicas das espécies de Cordyceps.
Ashraf SA, et al. Therapeutic Potential and Biological Applications of Cordycepin and Metabolic Mechanisms in Cordycepin-Producing Fungi. 2019.
Revisão dedicada à cordicepina e aos seus diferentes alvos e mecanismos biológicos.
Acute Cordyceps militaris supplementation and elevated resting oxygen uptake with faster reaction times: a randomized crossover trial. 2026.
Ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e crossover avaliando 1 g de extrato padronizado de C. militaris antes de exercício máximo, com resultados sobre consumo de oxigênio e tempo de reação.
Current Evidence of Ergogenic and Post-Exercise Recovery Effects of Dietary Supplementation with Cordyceps militaris in Humans: A Narrative Review. Nutrients. 2026;18(5):781.
Revisão da literatura humana sobre C. militaris, desempenho físico e recuperação pós-exercício, reunindo estudos de intervenção envolvendo 321 participantes.
Fontes científicas consultadas
PubMed / National Library of Medicine
PubMed Central
Cell Chemical Biology
Journal of Dietary Supplements
Journal of Alternative and Complementary Medicine
International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism
Phytotherapy Research




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