Um pequeno ensaio clínico encontrou respostas mais rápidas num teste clássico de atenção e um sinal de menos estresse após 28 dias. A biologia do fungo ajuda a explicar por que esse resultado interessa tanto à neurociência.
Na tela aparece a palavra AZUL, escrita em tinta vermelha. A tarefa é dizer a cor da tinta, não a palavra. Parece simples, mas o cérebro trava por uma fração de segundo, porque ler é tão automático que a palavra "azul" se impõe antes de você conseguir dizer "vermelho".
Esse pequeno conflito é o teste Stroop, um dos instrumentos mais usados na psicologia para medir velocidade de processamento e controle cognitivo. Em 2023, ele foi usado para responder a uma pergunta inesperada: um cogumelo consegue encurtar essa fração de segundo?
O experimento
A equipe de Sarah Docherty, no Reino Unido, recrutou 41 adultos saudáveis entre 18 e 45 anos. Metade recebeu 1,8 g de Hericium erinaceus, a Juba-de-Leão, e a outra metade recebeu placebo. Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quem tomava o quê, num desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo [1].
Os pesquisadores fizeram duas perguntas: o que acontece uma hora depois de uma única dose, e o que muda depois de 28 dias de uso.
A primeira resposta veio rápido. Sessenta minutos após a dose, o grupo da Juba-de-Leão completou a tarefa Stroop mais depressa que o grupo placebo [1]. Depois de quatro semanas, apareceu um segundo sinal: uma tendência de redução do estresse relatado pelos participantes [1].
Esse resultado tem um detalhe que o torna mais interessante. Ele apareceu em jovens saudáveis, pessoas cujo cérebro já funciona perto do auge. A maior parte da pesquisa anterior com Juba-de-Leão em humanos estudou idosos ou pessoas com comprometimento cognitivo, populações em que há mais espaço para melhora.
Antes de seguir, convém ler o resultado com a devida calma. Trata-se de um estudo piloto, com poucos participantes. A redução do estresse foi uma tendência, ou seja, não atingiu significância estatística. E o efeito no Stroop foi o achado de destaque num conjunto de testes em que outras medidas não mostraram mudanças tão claras [1]. Não é uma prova definitiva, é uma pista. Mas é uma pista que conversa com décadas de pesquisa em laboratório.
Por que um cogumelo mexeria com o cérebro
A atenção dos neurocientistas sobre a Juba-de-Leão gira em torno de duas famílias de moléculas. As hericenonas são encontradas no corpo de frutificação, a parte visível do cogumelo. As erinacinas são encontradas sobretudo no micélio, a rede de filamentos que cresce sob o solo [2].
Essas moléculas são estudadas pela capacidade de modular duas proteínas que o cérebro usa para se manter vivo e se reorganizar: o NGF (fator de crescimento neural) e o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) [3].
O NGF participa da sobrevivência e do crescimento de certos neurônios e do crescimento de neuritos, as extensões que os neurônios usam para formar novas conexões. O BDNF tem papel central na plasticidade sináptica, ou seja, na capacidade das conexões de se fortalecerem com a experiência, base do aprendizado e da memória [3].
Em termos simples, o NGF e o BDNF fazem parte da equipe de manutenção do cérebro, a maquinaria que conserva, reforça e redesenha as conexões entre os neurônios.
O que o laboratório mostrou
Em células e em animais, as evidências são consistentes. Uma revisão sistemática de 2025 sobre erinacinas reuniu os principais achados [2]:
- A erinacina A e extratos de micélio aumentaram a produção de NGF em astrócitos, células de suporte do sistema nervoso, e a erinacina A potencializou o crescimento de neuritos induzido pelo NGF.
- A erinacina C foi o composto que aumentou a expressão de BDNF, ativando o receptor TrkB, a principal via pela qual o BDNF exerce seus efeitos sobre plasticidade e sobrevivência neuronal.
- Em modelos animais de estresse, o micélio não apenas recuperou os níveis de BDNF, que o estresse havia reduzido, como os elevou acima dos níveis dos animais não estressados.
- Extratos do corpo de frutificação também elevaram o BDNF em modelos de estresse, o que sugere que as erinacinas não são as únicas moléculas ativas.
Um trabalho experimental adicional reforça que diferentes erinacinas estimulam vias ligadas ao NGF, ao BDNF e à sobrevivência neuronal [4].
Uma ponte, não uma prova
É aqui que precisamos ser honestos. O estudo de Docherty não mediu NGF nem BDNF nos participantes. Então não podemos afirmar que os voluntários responderam mais rápido ao Stroop porque o BDNF aumentou. Esse ensaio não demonstrou essa relação.
O que temos são duas linhas de evidência que apontam na mesma direção: um efeito comportamental em humanos e um conjunto de mecanismos bem descritos em laboratório. Elas se encaixam, mas a ponte entre elas ainda precisa ser construída por estudos futuros.
Há outro ponto curioso. Mudanças em plasticidade costumam levar dias ou semanas, enquanto o efeito no Stroop apareceu em uma hora. Isso sugere que o efeito agudo pode envolver outros mecanismos ainda pouco compreendidos, uma pergunta em aberto que vale acompanhar.
E o estresse?
O sinal de menor estresse após 28 dias conversa com outra frente de pesquisa. Estudos pré-clínicos sugerem que a Juba-de-Leão pode influenciar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o sistema que coordena nossa resposta ao estresse. Em modelos animais, também há normalização de alterações no BDNF e redução de comportamentos associados ao estresse [3].
Revisões recentes acrescentam outra camada: efeitos sobre inflamação, microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro, a rede de comunicação entre o intestino e o sistema nervoso [3].
O possível benefício, portanto, talvez não dependa de um único mecanismo. Pode ser uma combinação de neurotrofinas, inflamação, resposta ao estresse e conversa entre intestino e cérebro.
Corpo de frutificação ou micélio: não é tudo a mesma coisa
Há uma distinção que muita gente ignora. Como as hericenonas estão no corpo de frutificação e as erinacinas mais estudadas estão no micélio, produtos de Juba-de-Leão podem ter perfis químicos diferentes e não devem ser tratados como equivalentes [2].
A parte do fungo utilizada, a qualidade da matéria-prima e o método de extração mudam o que chega ao organismo. Ao avaliar um estudo ou um produto, vale sempre perguntar de qual Juba-de-Leão se está falando.
A história que está se desenhando
A cafeína dá um empurrão: acelera o sistema por algumas horas, e depois o efeito passa. O que torna a Juba-de-Leão interessante para os cientistas é outra hipótese, a de que ela atue menos como estimulante e mais como modulador das condições biológicas que permitem ao cérebro aprender, se adaptar e manter suas conexões.
Essa hipótese ainda está em construção. A maior parte da base mecanística vem de células e animais, e os estudos em humanos ainda são pequenos. Mas o ensaio de Docherty acrescenta uma peça importante: mesmo em jovens saudáveis, algo mensurável aconteceu uma hora depois da dose, e um sinal de menos estresse apareceu com o uso continuado.
Talvez a próxima pergunta seja a mais interessante: se medirmos o BDNF e o NGF nesses voluntários, encontraremos a ponte entre o laboratório e a vida real?
Referências bibliográficas
- Docherty S, Doughty FL, Smith EF. The acute and chronic effects of Lion's Mane mushroom supplementation on cognitive function, stress and mood in young adults: a double-blind, parallel groups, pilot study. Nutrients. 2023;15(22):4842. doi:10.3390/nu15224842. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38004235/
- Spangenberg ET, Moneypenny A, Bozzo GG, Perreault ML. Unveiling the role of erinacines in the neuroprotective effects of Hericium erinaceus: a systematic review in preclinical models. Frontiers in Pharmacology. 2025;16:1582081. doi:10.3389/fphar.2025.1582081
- [Autores, título, revista, ano — completar]. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12434001/
- [Autores, título, revista, ano — completar]. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12230622/



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