A teoria mais ridicularizada de Terence McKenna merece uma segunda chance? A neurociência de hoje tem algo a dizer.
Há cerca de 300 mil anos, o cérebro humano já tinha praticamente o tamanho e o formato do nosso. Mesmo assim, por quase 200 mil anos, fizemos pouco além de ferramentas simples de pedra.
Aí, entre 100 mil e 70 mil anos atrás, algo mudou. Aparecem gravuras em ocre, colares de conchas e rituais funerários. São os primeiros sinais de pensamento simbólico: a capacidade de fazer uma coisa representar outra, que é a base da arte, da linguagem e da religião.
O que acendeu essa faísca? Ninguém sabe ao certo. E em 1992, um escritor americano deu uma resposta que fez metade do mundo rir e a outra metade pensar: cogumelos mágicos.
A hipótese do “macaco chapado”
No livro Food of the Gods (1992), Terence McKenna propôs uma ideia ousada. Nossos ancestrais, ao sair das florestas para a savana africana, teriam encontrado cogumelos com psilocibina crescendo no esterco de grandes herbívoros. Ao comê-los por gerações, teriam “ligado” a consciência humana.
McKenna defendia três efeitos, conforme a dose:
- Dose baixa: visão mais aguçada, o que daria vantagem na caça.
- Dose média: mais excitação e libido, o que aumentaria a reprodução.
- Dose alta: experiências místicas e de dissolução do ego, que teriam dado origem à religião e à linguagem simbólica.
A comunidade científica praticamente ignorou a proposta. O apelido “Stoned Ape Theory” virou sinônimo de ideia que parece genial de madrugada e não sobrevive ao café da manhã. McKenna morreu em 2000, antes que a neurociência começasse a olhar para a psilocibina de um jeito completamente novo.
O que a ciência já sabe sobre o nosso cérebro
Em cerca de 3 milhões de anos, o cérebro dos homínios praticamente triplicou: de aproximadamente 450 cm³ nos australopitecos para cerca de 1.350 cm³ no Homo sapiens. É um dos saltos mais rápidos e caros da história da vida. Hoje, o cérebro representa cerca de 2% do nosso peso e consome cerca de 20% da nossa energia.
A ciência tem algumas explicações bem estudadas para esse salto:
- O fogo e o cozimento (Richard Wrangham): cozinhar tornou a comida mais fácil de digerir e liberou energia para um cérebro maior.
- O tecido caro (Aiello e Wheeler, 1995): trocamos um intestino grande por um cérebro grande, possibilitado por uma dieta mais rica em carne e gordura.
- O cérebro social (Robin Dunbar): viver em grupos maiores exigiu mais capacidade para acompanhar alianças, rivalidades e reputações.
Nenhuma delas, sozinha, explica por que o comportamento simbólico apareceu tão tarde, dezenas de milhares de anos depois de o cérebro já ter tamanho moderno. McKenna errou no mecanismo, mas a pergunta que ele fez continua em aberto na biologia evolutiva.
O que a psilocibina realmente faz no cérebro
Durante décadas, os psicodélicos foram estudados pelo que fazem sentir. A virada dos últimos anos foi descobrir o que eles fazem fisicamente.
Em 2021, pesquisadores da Universidade Yale deram uma única dose de psilocibina a camundongos e acompanharam o córtex frontal ao microscópio. Em 24 horas, surgiram novas espínulas dendríticas, as pequenas protuberâncias onde os neurônios se conectam. Um mês depois, boa parte delas ainda estava lá.
Outros estudos foram na mesma direção:
- Novas sinapses em neurônios humanos: a psilocina, forma ativa que o corpo produz a partir da psilocibina, estimulou a formação de sinapses e deixou os dendritos mais ramificados em neurônios humanos cultivados em laboratório.
- Genes da plasticidade: a substância ativa genes e vias ligados ao crescimento neuronal, como BDNF, c-Fos e mTOR.
- Redes reorganizadas: um estudo publicado na revista Cell em 2025 mostrou uma reorganização ampla das redes do córtex que dura muito depois de a substância sair do organismo.
- Menos “piloto automático”: exames de imagem em humanos mostram que a psilocibina reduz a atividade da rede de modo padrão, ligada à ruminação e ao senso rígido de “eu”, e aumenta a comunicação entre regiões que normalmente pouco conversam.
Os cientistas criaram um nome para substâncias assim: psicoplastógenos. São compostos que abrem uma janela temporária em que o cérebro forma e reorganiza conexões com mais facilidade. Em outras palavras, o mecanismo físico que McKenna precisava, e não tinha, existe.
A versão original caiu. A nova é mais interessante.
Antes de empolgar, vale olhar os problemas da teoria original com honestidade:
- Herança impossível. O que uma substância faz no seu cérebro não passa para os seus filhos pelos genes. Esse é o furo central da proposta de McKenna.
- Visão aguçada sem evidência. A ideia de que doses baixas melhorariam a visão de caçadores nunca foi confirmada.
- Tolerância rápida. O corpo cria tolerância à psilocibina em poucos dias, o que dificulta imaginar um uso diário e contínuo.
- Nenhum rastro fóssil. Cogumelos não fossilizam bem, e não há como provar que homínios os consumiam.
Mesmo assim, a oportunidade existia. O Psilocybe cubensis cresce naturalmente no esterco de herbívoros na África subsaariana. Um estudo de 2026 na revista Proceedings of the Royal Society B identificou seu parente selvagem mais próximo, também africano, com um ancestral comum de cerca de 1,5 milhão de anos. E o gênero Psilocybe é muito mais antigo: análises genéticas estimam sua origem em cerca de 65 milhões de anos, na época da extinção dos dinossauros.
Por isso, duas versões revisadas da hipótese ganharam espaço:
- A versão da plasticidade. Dennis McKenna, etnofarmacólogo e irmão de Terence, propõe que exposições repetidas, talvez sazonais ou rituais, em fases críticas do desenvolvimento, teriam deixado cérebros mais plásticos. Com o tempo, a seleção natural poderia favorecer quem aproveitava melhor essas janelas.
- A versão social. Um artigo de 2021 de José Manuel Rodríguez Arce e Michael Winkelman defende que a psilocibina teria mudado primeiro a sociedade. A substância aumenta de forma consistente empatia, abertura e confiança. Experiências intensas vividas em grupo criam laços. Para pequenos bandos de homínios, coesão significava sobrevivência. A seleção teria agido sobre a cultura, e a cultura, por sua vez, sobre o cérebro.
A versão original depende de uma herança genética que não existe. A social passa pela cultura, um caminho que a biologia aceita.
O que sabemos e o que ainda não sabemos
A distância entre “funciona num camundongo” e “moldou a espécie humana” é enorme. O quadro abaixo separa uma coisa da outra.
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Já foi demonstrado |
Ainda não foi demonstrado |
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Uma dose gera novas conexões duradouras no cérebro de camundongos |
Que o mesmo acontece, na mesma escala, no cérebro humano vivo |
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A psilocina estimula sinapses em neurônios humanos cultivados em laboratório |
Que homínios consumiam esses cogumelos com regularidade |
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A psilocibina tem efeitos pró-sociais mensuráveis em humanos |
Que isso deu vantagem evolutiva a algum grupo |
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P. cubensis e seus parentes são africanos e antigos |
Que o consumo explica o surgimento do pensamento simbólico |
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Rituais coletivos são antigos e aparecem em todas as culturas |
Que rituais com cogumelos existiam há 100 mil anos |
Conclusão honesta: a hipótese continua especulativa. A diferença é que, há 30 anos, faltava um mecanismo plausível. Hoje, esse mecanismo existe.
Por que isso importa hoje
Talvez nunca saibamos se um cogumelo esteve presente no nascimento da mente humana. Mas a pergunta já mudou a forma como olhamos para os fungos.
Se a psilocibina abre janelas de reorganização cerebral e fortalece laços entre pessoas, isso ajuda a entender por que as terapias assistidas por psicodélicos vêm mostrando resultados promissores em estudos clínicos. Também muda a leitura dos rituais antigos: eles podem ter sido uma tecnologia prática para transformar a mente, usada muito antes de existir a palavra “neuroplasticidade”.
McKenna provavelmente errou nos detalhes. Mas apontou para uma pergunta real. E a ciência pode acabar contando uma história ainda mais estranha, e mais fascinante, do que a dele.
E você? Acha que os fungos tiveram um papel na nossa evolução? Conta nos comentários.
Fontes
- McKenna, T. Food of the Gods. Bantam, 1992
- Shao, L.-X. et al. Psilocybin induces rapid and persistent growth of dendritic spines in frontal cortex in vivo. Neuron, 2021 (preprint)
- Psilocina e sinaptogênese em neurônios humanos: eLife, reviewed preprint 104006
- Reorganização de redes corticais: Cell, 2025
- Psicoplastógenos: Neuropsychopharmacology, 2022
- Carhart-Harris, R. et al. Neural correlates of the psychedelic state. PNAS, 2012
- Rodríguez Arce, J. M.; Winkelman, M. Psychedelics, Sociality, and Human Evolution. Frontiers, 2021
- Bradshaw, A. J. et al. Phylogenomics of the psychoactive mushroom genus Psilocybe. PNAS, 2024
- Parente selvagem do P. cubensis: Proceedings of the Royal Society B, v. 293, art. 20252270, 2026
- Wrangham, R. Pegando Fogo: por que cozinhar nos tornou humanos. Zahar, 2010
- Aiello, L.; Wheeler, P. The Expensive-Tissue Hypothesis. Current Anthropology, 1995
- Dunbar, R. The Social Brain Hypothesis. Evolutionary Anthropology, 1998




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